segunda-feira, 28 de novembro de 2016

PCdoB: Fidel Castro figura no panteão dos gigantes da humanidade


O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) divulgou, nesta segunda-feira (28) uma nota sobre a morte do líder cubano Fidel Castro ocorrida na noite de sexta-feira (madrugada de sábado no Brasil). O texto, assinado pela presidenta do Partido, Luciana Santos e por José Reinaldo Carvalho, secretário de política e relações internacionais, afirma que “desde a mais remota aldeia da Sibéria até as savanas da África, o nome de Fidel Castro Ruz soa como um grito de luta por liberdade e igualdade”. Para o PCdoB, “Fidel figura no panteão dos gigantes que lutaram pelo progresso da humanidade, enfrentando o atraso e o obscurantismo”. Leia abaixo a íntegra da nota.
Ao General de Exército Raúl Castro Ruz
Primeiro-Secretário do Partido Comunista de Cuba
Ao Comitê Central do Partido Comunista de Cuba
Queridos camaradas,
Em nome dos dirigentes e militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) expressamos nossa profunda consternação diante da morte do inesquecível comandante Fidel Castro Ruz.
Fidel Castro foi o principal líder de uma revolução que libertou o povo cubano dos grilhões da dominação imperial, e conduziu sua nação ao caminho do desenvolvimento soberano, com justiça social e liberdade.
Tal feito, em sua dimensão e profundidade, é inédito na história da Nossa América. Sua ousadia e pioneirismo empolgou milhões ao redor do mundo, tendo Fidel tornado-se depositário do carinho e da afeição de pessoas de todos os recantos do globo. Desde a mais remota aldeia da Sibéria até as savanas da África, o nome de Fidel Castro Ruz soa como um grito de luta por liberdade e igualdade.
Aos sórdidos e baixos ataques do inimigo, Fidel respondia sempre com invulgar e inabalável dignidade. Sobre Fidel, cabem as mesmas palavras que Engels pronunciou diante do túmulo de Marx:
“Foi o homem mais odiado e mais caluniado do seu tempo. Governos, tanto absolutos como republicanos, expulsaram-no; burgueses, tanto conservadores como democratas extremos, inventaram ao extremo difamações acerca dele. Ele punha tudo isso de lado, como teias de aranha, sem lhes prestar atenção, e só respondia se houvesse extrema necessidade”.
De fato, Fidel venceu as tentativas de assassinatos, os ataques, as calúnias, sempre contando com a força de sua gente e com a solidariedade dos povos do mundo. Solidariedade que ele e Cuba prestaram mais do receberam.
Todos devemos muito a Fidel Castro Ruz. Seu exemplo seguirá inspirando gerações de lutadores pela justiça social.
O PCdoB considera que Fidel figura no panteão dos gigantes que lutaram pelo progresso da humanidade, enfrentando o atraso e o obscurantismo.
Inclinamos reverentes nossas bandeiras vermelhas em memória de Fidel Castro ao mesmo tempo em que fazemos soar bem alto o brado altaneiro do eterno comandante:
Viva Cuba!
Viva a Revolução!
Até a vitória, sempre!
Luciana Santos
Presidenta do PCdoB
José Reinaldo Carvalho
Secretário de Política e Relações Internacionais
Pelo Comitê Central do PCdoB

sábado, 26 de novembro de 2016

Fidel, por Eduardo Galeano

E seus inimigos não dizem que apesar de todos os pesares, das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida mas obstinadamente alegre gerou a sociedade latino-americana menos injusta.

Por Eduardo Galeano

Seus inimigos dizem que foi rei sem coroa e que confundia a unidade com a unanimidade.

E nisso seus inimigos têm razão.

Seus inimigos dizem que, se Napoleão tivesse tido um jornal como o Granma, nenhum francês ficaria sabendo do desastre de Waterloo. E nisso seus inimigos têm razão.

Seus inimigos dizem que exerceu o poder falando muito e escutando pouco, porque estava mais acostumado aos ecos que às vozes. E nisso seus inimigos têm razão.

Mas seus inimigos não dizem que não foi para posar para a História que abriu o peito para as balas quando veio a invasão, que enfrentou os furacões de igual pra igual, de furacão a furacão, que sobreviveu a 637 atentados, que sua contagiosa energia foi decisiva para transformar uma colônia em pátria e que não foi nem por feitiço de mandinga nem por milagre de Deus que essa nova pátria conseguiu sobreviver a dez presidentes dos Estados Unidos, que já estavam com o guardanapo no pescoço para almoçá-la de faca e garfo.

E seus inimigos não dizem que Cuba é um raro país que não compete na Copa Mundial do Capacho.

E não dizem que essa revolução, crescida no castigo, é o que pôde ser e não o quis ser. Nem dizem que em grande medida o muro entre o desejo e a realidade foi se fazendo mais alto e mais largo graças ao bloqueio imperial, que afogou o desenvolvimento da democracia a la cubana, obrigou a militarização da sociedade e outorgou à burocracia, que para cada solução tem um problema, os argumentos que necessitava para se justificar e perpetuar.

E não dizem que apesar de todos os pesares, apesar das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida mas obstinadamente alegre gerou a sociedade latino-americana menos injusta.

E seus inimigos não dizem que essa façanha foi obra do sacrifício de seu povo, mas também foi obra da pertinaz vontade e do antiquado sentido de honra desse cavalheiro que sempre se bateu pelos perdedores, como um certo Dom Quixote, seu famoso colega dos campos de batalha.

(Do livro “Espelhos, uma história quase universal”)

Tradução: Eric Nepomunceno



Fonte: Portal Vermelho

Maria Leite: Gracias, Fidel!

Na ofensiva global contra o capitalismo, que busca se impor em todo o mundo como sistema único e final, no sombrio continente americano, surgiu Fidel, como a personalidade mais lúcida de nossa época no enfrentamento aos que tentam nos neocolonizar.

Maria Leite *

Uma fortaleza nas lutas, dotado de um otimismo e uma fé na humanidade incomparáveis, forte de caráter, um gladiador invicto, era impressionante vê-lo tão comovido diante das dores humanas, assim nas explosões semelhantes a um vulcão, com sua voz enérgica, na denúncia dos crimes do imperialismo.

Nos dias difíceis de 1958, em Sierra Maestra Fidel prognosticou o que seria a sua vida, em carta escrita, a Celia Sánchez, sua abnegada companheira de lutas, num mínimo pedaço de papel. - “Ao ver los foguetes que atiraram en casa de Mario, jurei, a mim mesmo que os americanos irão pagar bem caro pelo que estão fazendo. Quando esta guerra acabar, começará para mim, uma guerra muito mais longa! A guerra que voy a echar contra eles. Me dou conta que esse será meu verdadeiro destino”.

Fidel foi alguém capaz de desprender-se de tudo, transitória ou definitivamente; alguém a quem nenhum bem material interessou, alguém que renegou a covardia, que não suportou a indisciplina e a grosseria. Um Homem, como todos que cometeu erros, mas é um mestre na percepção da realidade concreta no sentido de reconhecer os erros e corrigi-los prontamente.

Sabia ademais colocar-se acima dos problemas e fazer valer o princípio de unidade entre os cubanos.

Enfim, que ideias defendeu Fidel, o que o distingue de outras figuras de sua época? A lealdade aos princípios, a visão estratégica, a compreensão profunda dos males que assolam a humanidade: o sistema de opressão, de exploração e guerra aos povos com o fim de saqueá-los.

Fidel desenvolveu ao longo dos anos a rebeldia. Com pulso firme, segurou a bandeira, manteve Cuba no caminho do socialismo e comandou a continuidade da Revolução, fundindo o pensamento marxista-leninista e o legado de Martí.

Homem de cultura, professor e pedagogo por vocação, capaz de compreender cabalmente que sem educação não há possibilidade alguma de se lograr um sistema social justo e sustentável.

No início dos anos 1990, a contrarrevolução alastrava-se pelo mundo. Quando foram arriadas as bandeiras da União Soviética, colocando um ponto à história do chamado Campo Socialista, surgiu a “teoria” das circunstâncias. Segundo esta, a diligência soviética havia atuado como num tabuleiro; tocou-se a primeira peça e, em cadeia, todas as demais iriam caindo. Dentro dessa lógica, Cuba também deveria cair.

Em meio ao alarido, Fidel advertiu: “Não se esqueçam de que essa ficha, da qual vocês falam, está demasiado distante no geográfico e no histórico”.

Os discursos de Fidel Castro inauguraram em Cuba um modo original de relação de um líder com seu povo. Sua palavra, comprometida de forma indissolúvel com a ação, desprovida de retórica banal, ensinou aos cubanos a crer e levantar suas ideias, massacradas por décadas de politicagem durante república mediatizada.

Nas palavras proferidas em Cienfuegos na festa de 26 de julho de 1999: “Não há país com mais moral, nem mais capaz de defender suas verdades. Não há país mais transparente na sua conduta para enfrentar todas as tramoias e prepotências. Nada das propostas mencionadas contra Cuba nos mete medo, nem o mínimo. Não temos receio nem da notícia de que um meteoro vem direto à Terra. Há muito tempo o nosso povo aprendeu a não ter medo de nada e de ninguém. Aos sem pátria, nada lhes importa, a eles e aos que os apoiam. Subestimaram o nosso país quando julgaram que ao derrubar o campo socialista e desintegrar a URSS, derrubar-se-ia a Revolução Cubana. Mas aqui está um povo tenaz e valente”.

Esse impulso contagiou a todos os cubanos e resgatou a dignidade dilacerada. Fidel sempre considerou que o internacionalismo anti-imperialista era um dever e uma necessidade, num mundo onde o egoísmo se instala em qualquer parte.

Praticou todo tipo de ajuda e estendeu a mão generosa de um povo, através de seus médicos, professores e milhares de profissionais ao mundo. O triunfo da Revolução Cubana em 1° de janeiro de 1959 veio com importantes transformações sociais na história, não apenas da América Latina, mas também de todas as forças progressistas no mundo.

Ao derrotar as estruturas estabelecidas, Fidel Castro colocou em cheque não somente o poder da oligarquia de Batista, mas situou os seres humanos no foco de um novo projeto de sociedade onde a solidariedade e o internacionalismo são protagônicos.

Quando Mandela estava preso, visto e tratado pelas nações “livres” do mundo como um “arruaceiro”, Cuba foi o único país do mundo que jamais negou a ele solidariedade e defesa incondicional. Tanto foi assim, que o primeiro país que Mandela visitou ao ser colocado em liberdade foi Cuba. Mandela falando aos cubanos, em Matanzas no dia 26/07/1991: "Na África estamos acostumados a sermos vítimas de outros países, que querem explorar o nosso território ou subverter a nossa soberania. Na história de África não existe outro caso de um povo que tenha se levantado em defesa de um de nós"

Quem melhor do que Fidel vem prognosticando o futuro da humanidade? Disse ele em 2010: “Oponho-me ao cinismo e às mentiras com que agora querem a ocupação da Líbia. Pode-se ou não concordar com Khadafi. Mas será preciso esperar o tempo necessário para conhecermos com rigor, o quanto há de verdade ou mentira. Uma mistura de fatos de todo tipo que, em meio do caos, se produzem na Líbia. O que para mim se torna evidente é que ao governo dos Estados Unidos não lhe preocupa minimamente a paz na Líbia e não vacilará em ordenar à Otan invadir esse rico país, talvez em breves dias. Da minha parte, não imagino o líder líbio abandonando o país, fugindo às responsabilidades que lhe imputam. Qualquer pessoa honesta sempre reagirá contra uma injustiça que seja cometida contra qualquer povo do mundo, e o pior disso, neste instante, seria guardar silêncio diante do crime que a Otan se prepara para cometer contra o povo líbio. A chefia dessa organização bélica quer fazê-lo com urgência. É preciso denunciar isso."

Em discurso pronunciado por ocasião do 60° aniversário de seu ingresso no curso de Direito, no dia 17 de novembro de 2005, Fidel Castro resumiu, melhor do que ninguém, a sua existência. Rodrigo Díaz de Vivar, mais conhecido como El Cid Campeador, amarrado a seu cavalo, colocou em fuga os apavorados inimigos, mesmo depois de morto. Nesse homem, o líder da revolução cubana buscou a imagem perfeita para definir a sua própria trajetória de lutas, seu exemplo de resistência, determinação e garra, típicos dos vencedores.

A todos chega seu dia, mas Fidel irá guerrear e vencer batalhas até depois de morto. O papel de Fidel na orientação do movimento revolucionário é definitivo, porque nenhum líder correu tantos riscos pessoais e nem se entregou, de forma tão concreta, à luta.

Num transcurso de 40 anos se planejaram mais de 600 complôs homicidas contra Fidel Castro. Em outras cifras, durante 40 anos, a cada 82 dias se intentou assassinar o líder cubano. Se não é recorde mundial é um bom resultado, digno de medalha olímpica.

A todos nós, a quem a vida proporcionou condições para entender o legado de Fidel, apenas resta um sonho: que façamos por merecer tantas lições! Fidel, gracias por tuas ideias, por tua ação tão coerente, e acima de tudo gracias por teu fuzil! Com Fidel, até a vitória, sempre!



*É pedagoga, membro da Associação José Marti de Santos (SP) e militante do PCdoB em Santos (SP)